Se você entrar em sites de monitoramento como o CoinMarketCap ou CoinGecko hoje, verá um número impressionante: existem mais de 20.000 criptomoedas listadas. Para quem está começando, isso soa como um caos completo. Afinal, se o Bitcoin foi criado para ser o “dinheiro da internet”, por que precisamos de tantas outras opções?
A verdade é que o ecossistema blockchain evoluiu de uma simples ferramenta de transferência de valor para uma infraestrutura tecnológica global. Neste artigo, vamos mergulhar nos motivos técnicos, econômicos e sociais que explicam essa diversidade e como você pode diferenciar projetos legítimos de simples “ruído” de mercado.
O Código Aberto: A Base da Proliferação das Criptomoedas

O primeiro e mais fundamental motivo é técnico: o código-fonte da maioria das criptomoedas, incluindo o Bitcoin e o Ethereum, é aberto (Open Source).
Isso significa que qualquer pessoa com conhecimento básico de programação pode acessar o código original, copiá-lo e fazer pequenas alterações para criar sua própria moeda. Esse processo é conhecido como “copiar e colar” tecnológico. Muitas das moedas que vemos hoje são apenas clones do Bitcoin ou do Ethereum com parâmetros ligeiramente diferentes, como maior velocidade de transação ou um limite maior de moedas emitidas.
A democratização da criação financeira
Graças ao código aberto, não é necessário pedir permissão a um banco central ou governo para criar um novo ativo. Essa liberdade de inovação é o combustível que permitiu que desenvolvedores de todo o mundo experimentassem novas ideias sem as barreiras burocráticas do sistema financeiro tradicional.
Forks: Quando uma Criptomoeda se Divide em Duas
Um conceito essencial para entender o número de moedas é o Fork (Bifurcação). No mundo das criptomoedas, os desenvolvedores e a comunidade precisam concordar com as regras de atualização do software. Quando há uma discordância irreconciliável, a rede se divide.
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Hard Fork: Ocorre quando uma parte da comunidade quer mudar as regras de forma que a nova versão não é compatível com a antiga. O resultado? Uma nova moeda nasce.
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Exemplos Reais: O Bitcoin Cash (BCH) nasceu de um fork do Bitcoin original devido a uma disputa sobre o tamanho dos blocos. O Ethereum Classic (ETC) surgiu após uma divergência ética e técnica na rede Ethereum original.
Essas divisões geram novas moedas “filhas” que herdam o histórico da moeda “mãe”, aumentando instantaneamente a contagem total de ativos no mercado.
Diferença Crucial entre Moedas (Coins) e Tokens
Para o público leigo, tudo é “criptomoeda”, mas tecnicamente há uma distinção que explica por que o número é tão alto.
Moedas (Coins)
São ativos que possuem sua própria blockchain independente. Exemplos: Bitcoin, Ethereum, Cardano, Solana. Criar uma “coin” exige muito esforço técnico, pois você precisa construir toda a infraestrutura da rede do zero.
Tokens
Tokens são ativos criados dentro de uma blockchain que já existe. Graças a padrões como o ERC-20 (da rede Ethereum) e o BEP-20 (da BNB Chain), criar um token tornou-se uma tarefa de poucos minutos.
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A Facilidade de Emissão: Hoje, existem plataformas onde você preenche um formulário, paga uma pequena taxa e pronto: seu token está no ar. É por isso que vemos milhares de tokens de projetos pequenos, aplicativos, jogos e até memes.
Especialização: Uma Criptomoeda para Cada Problema

O Bitcoin foi desenhado para ser uma reserva de valor e meio de troca. No entanto, a tecnologia blockchain pode fazer muito mais. Muitas criptomoedas existem porque tentam resolver problemas específicos que o Bitcoin não consegue (ou não quer) resolver.
Contratos Inteligentes (Smart Contracts)
Redes como Ethereum e Solana não são apenas moedas; são computadores globais. Elas permitem que programadores criem aplicativos descentralizados (dApps). Muitas criptomoedas que você vê são, na verdade, os “combustíveis” ou governanças desses aplicativos.
Privacidade e Anonimato
Enquanto o Bitcoin é pseudônimo (as transações são públicas), moedas como Monero (XMR) e Zcash (ZEC) foram criadas especificamente para oferecer privacidade total, atendendo a um nicho de usuários que valoriza a discrição financeira absoluta.
Cadeia de Suprimentos e Logística
Projetos como a VeChain (VET) utilizam a blockchain para rastrear produtos de luxo ou alimentos da fábrica até o consumidor final, garantindo a autenticidade. Para que esse ecossistema funcione, ele precisa de seu próprio ativo digital.
O Papel das Stablecoins na Economia Digital
Você já deve ter ouvido falar do Tether (USDT) ou do USD Coin (USDC). Elas são criptomoedas, mas seu valor é pareado (geralmente 1:1) com o dólar americano.
Existem centenas de stablecoins porque diferentes empresas querem oferecer sua própria versão “segura” e auditada de dinheiro digital. Elas servem como um porto seguro para investidores em momentos de alta volatilidade e são fundamentais para o funcionamento das corretoras (exchanges).
O Trilema da Blockchain: A Busca pela Perfeição
Um dos maiores motivos para o surgimento de novas redes (e suas respectivas moedas) é o chamado Trilema da Blockchain, que afirma que é quase impossível ser simultaneamente:
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Descentralizado
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Seguro
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Escalável (Rápido e Barato)
O Bitcoin é ultra seguro e descentralizado, mas lento. A Solana é ultra rápida, mas sofre críticas sobre sua descentralização. Cada nova criptomoeda “Layer 1” (Camada 1) que surge tenta encontrar um equilíbrio diferente entre esses três pilares, atraindo investidores e desenvolvedores para sua proposta única.
Finanças Descentralizadas (DeFi) e Governança

Com o surgimento do setor de DeFi, surgiu uma nova categoria de criptomoedas: os Tokens de Governança.
Imagine um banco onde os clientes decidem as taxas de juros. Para votar, você precisa ter o token desse projeto (como AAVE ou UNI). Como existem milhares de protocolos de empréstimo, troca e seguros descentralizados, cada um possui seu próprio token, inflando o número total de ativos.
Meme Coins: O Poder das Comunidades e do Marketing
Não podemos ignorar as moedas criadas por piada ou cultura de internet, como Dogecoin (DOGE) e Shiba Inu (SHIB).
Embora muitas não possuam uma utilidade técnica revolucionária, elas existem porque possuem comunidades massivas. No mundo digital, a atenção é uma forma de valor. Se milhões de pessoas decidem que um token de cachorro tem valor, ele passa a ter liquidez e mercado, incentivando a criação de outras milhares de “moedas meme” na esperança de repetir o sucesso.
Por que tantas criptomoedas falham ou desaparecem?
Apesar de existirem milhares, a dura realidade é que 90% ou mais dessas moedas não terão valor no longo prazo. O mercado cripto funciona como um laboratório de Darwinismo financeiro.
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Projetos Fantasmas: Muitos tokens são criados para um projeto que nunca sai do papel.
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Falta de Uso Real: Se ninguém usa a tecnologia, a moeda perde valor até desaparecer.
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Golpes (Scams): Infelizmente, a facilidade de criação atrai pessoas mal-intencionadas que criam moedas apenas para roubar investidores (os famosos Rug Pulls).
Como Filtrar o que é Relevante em Meio a Milhares de Opções

Para o investidor iniciante, navegar em um mar de 20 mil moedas é perigoso. Aqui estão algumas dicas de ouro para não se perder:
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Olhe a Capitalização de Mercado: Moedas no “Top 100” geralmente têm mais liquidez e histórico.
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Estude o Whitepaper: O documento explica qual problema a moeda resolve? Se for vago, desconfie.
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Verifique a Comunidade e Desenvolvedores: Há pessoas reais trabalhando no código de forma constante?
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Utilidade Prática: A moeda serve para algo além de ser especulada?
A Diversidade é um Sinal de Amadurecimento
A existência de milhares de criptomoedas não é um defeito do sistema, mas um efeito colateral da inovação aberta. Da mesma forma que existem milhões de sites na internet, mas apenas alguns poucos que usamos diariamente (Google, Amazon, YouTube), o mercado de cripto está passando por uma fase de experimentação intensa.
Com o tempo, o mercado tende a se consolidar. Projetos sem valor desaparecerão, e as tecnologias que realmente resolvem problemas do mundo real — seja em pagamentos, contratos ou identidade digital — permanecerão. O segredo é educação constante para saber separar o ouro do cascalho.