Descobrir que você foi vítima de uma fraude financeira é uma experiência angustiante. Além do prejuízo financeiro, há o sentimento de invasão e a preocupação com o uso de seus dados pessoais. No entanto, o desespero é o maior aliado dos criminosos. Se você está se perguntando “o que fazer se cair em golpe de empréstimo“, este guia foi escrito para você.
Manter a calma e agir com rapidez é fundamental para tentar recuperar o dinheiro e, principalmente, proteger sua identidade de danos futuros. Abaixo, detalhamos cada passo técnico e jurídico que você deve seguir para minimizar os impactos e denunciar os criminosos.
Identificação imediata: Como saber se você realmente caiu em um golpe?

Muitas vezes, a vítima fica na dúvida se o processo está apenas “atrasado” ou se é uma fraude. Existem sinais claros que confirmam o golpe:
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Pedido de depósito antecipado: Esta é a prova cabal. Nenhuma instituição financeira séria ou autorizada pelo Banco Central exige pagamento de taxas, seguros ou “avalistas” para liberar um empréstimo.
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Contatos por números de terceiros: Bancos não utilizam contas de WhatsApp pessoais ou perfis sem verificação para fechar negócios.
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Pressão psicológica: O golpista diz que a oferta expira em poucos minutos para impedir que você pense ou pesquise.
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Promessas irreais: Juros baixíssimos para negativados sem qualquer análise de crédito.
Se você já fez um pagamento e o dinheiro do empréstimo não caiu, ou se o “consultor” parou de responder, o golpe está confirmado.
Passo 1: Registre o Boletim de Ocorrência (B.O.) imediatamente
O primeiro passo jurídico e administrativo é o registro do crime. O Boletim de Ocorrência é o documento que prova para bancos e órgãos de proteção ao crédito que você foi vítima de uma fraude.
Onde e como registrar?
Atualmente, a maioria dos estados brasileiros permite o registro de Boletim de Ocorrência Eletrônico para crimes de estelionato. Acesse o site da Polícia Civil do seu estado. Ao relatar o ocorrido, seja extremamente detalhado:
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Informe o site onde viu o anúncio.
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Liste os números de telefone e e-mails utilizados pelos golpistas.
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Anexe comprovantes de transferências (PIX, TED ou boletos).
Este documento é essencial para que, futuramente, você possa contestar dívidas abertas em seu nome pelos criminosos.
Passo 2: Notifique as instituições financeiras envolvidas (Mecanismo Especial de Devolução – MED)
Se você fez o pagamento via PIX, o tempo é seu maior inimigo. O Banco Central possui um protocolo chamado MED (Mecanismo Especial de Devolução).
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Entre em contato com o SEU banco: Avise que aquela transação foi fruto de um golpe.
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Solicite a abertura do MED: O seu banco entrará em contato com o banco que recebeu o dinheiro (o banco do golpista) para tentar bloquear o saldo.
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Análise de 7 dias: O banco receptor analisará a conta do suposto golpista. Se houver saldo e a fraude for confirmada, o dinheiro pode ser devolvido a você.
Caso o pagamento tenha sido feito via boleto, entre em contato com o banco emissor do boleto imediatamente para tentar o cancelamento da compensação.
Passo 3: Proteja seu CPF e monitore seus dados pessoais
Golpistas de empréstimo não querem apenas o seu dinheiro “antecipado”; eles querem seus dados (RG, CPF, fotos) para abrir contas em outros bancos, contratar cartões e aplicar golpes em terceiros usando o seu nome.
Registrato do Banco Central
Acesse a ferramenta Registrato do Banco Central do Brasil. Lá, você consegue ver:
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Todas as contas bancárias abertas em seu nome.
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Todos os empréstimos e financiamentos ativos.
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Chaves PIX cadastradas.
Se encontrar algo que você não reconhece, entre em contato imediatamente com a respectiva instituição para encerrar a conta ou cancelar o contrato.
Passo 4: Notifique os órgãos de proteção ao crédito (Serasa e Boa Vista)

Os criminosos podem tentar usar seus dados para comprar a prazo em lojas físicas ou online. É recomendável entrar em contato com o Serasa e o Boa Vista SCPC para informar que seus documentos foram comprometidos.
Alguns desses órgãos oferecem serviços (gratuitos ou pagos) de monitoramento em tempo real, que enviam um SMS ou notificação no aplicativo toda vez que uma empresa consulta seu CPF para dar crédito. Isso evita que você seja surpreendido por uma dívida de um produto que nunca comprou.
Como recuperar o dinheiro perdido em golpes de empréstimo?
Recuperar o valor enviado voluntariamente (sob erro) é difícil, mas não impossível. Além do MED mencionado anteriormente, existem caminhos judiciais.
Ação por Falha na Prestação de Serviço
Se ficar provado que o banco do golpista permitiu a abertura de uma conta com documentos falsos ou não bloqueou uma movimentação atípica e suspeita, a justiça pode entender que houve responsabilidade civil do banco.
A Súmula 479 do STJ diz que: “As instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações bancárias”. Nestes casos, um advogado especializado pode ajudar a reaver o valor através de uma ação judicial.
Tipos comuns de golpes de empréstimo para ficar alerta
Para evitar cair em uma nova armadilha, é preciso conhecer as variações mais comuns desse crime:
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Golpe do Fiador/Seguro-Fiança: O golpista diz que o crédito está aprovado, mas que você precisa pagar o seguro ou contratar um fiador da própria empresa.
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Golpe do IOF antecipado: Alegam que o imposto (IOF) deve ser pago antes da liberação. Fato: O IOF é descontado diretamente do valor que você recebe, nunca pago por fora.
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Golpe da Liberação para Negativados: Promessas de crédito fácil para quem tem restrições, sem qualquer garantia.
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Phishing (Sites Falsos): Sites que copiam visualmente bancos famosos (como Caixa ou Itaú) apenas para coletar suas senhas e dados.
Prevenção: Como verificar se uma empresa de empréstimo é legítima?
Antes de fornecer qualquer dado, faça uma “checagem de segurança”:
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Consulte o CNPJ no site da Receita Federal: Verifique se a empresa existe e se a atividade econômica condiz com serviços financeiros.
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Busca no Banco Central: A ferramenta “Encontre uma Instituição” do site do BACEN permite ver se a empresa está autorizada a operar.
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Reclame Aqui: Verifique a reputação da empresa. Se houver centenas de reclamações sobre “taxas antecipadas”, fuja.
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Certificado de Segurança (HTTPS): Verifique se o site tem o cadeado de segurança. No entanto, lembre-se: golpistas também podem comprar certificados, então este não deve ser o único critério.
Aspectos Psicológicos: Lidando com a culpa após o golpe

É muito comum que a vítima se sinta “burra” ou envergonhada por ter caído na conversa do criminoso. Isso impede que muitas pessoas denunciem o crime.
Entenda: os golpistas são profissionais da engenharia social. Eles usam logotipos reais, termos técnicos e gatilhos mentais de urgência. O erro não é seu, o crime é deles. Compartilhar sua história com familiares e registrar a queixa ajuda a evitar que outras pessoas passem pela mesma situação.
O papel das redes sociais e plataformas de anúncios na propagação de golpes
A maioria dos golpes de empréstimo nasce em anúncios patrocinados no Facebook, Instagram e Google. Essas plataformas, infelizmente, nem sempre conseguem filtrar anúncios fraudulentos em tempo real.
Sempre que vir um anúncio de “dinheiro fácil”, desconfie. Vá diretamente ao site oficial da instituição financeira digitando o endereço no navegador, em vez de clicar no link do anúncio. Denuncie o anúncio na própria plataforma para ajudar a derrubar o perfil do criminoso.
O caminho da recuperação e da segurança
Saber o que fazer se cair em golpe de empréstimo é o primeiro passo para retomar o controle de sua vida financeira. O registro do B.O., a ativação do MED no banco e o monitoramento constante do seu CPF via Registrato são as armas mais poderosas que você tem.
A partir de agora, adote a regra de ouro: Dinheiro para liberação de empréstimo não existe. Se pedirem R$ 1,00 que seja para “liberar” o crédito, é golpe. Eduque-se financeiramente e utilize apenas canais oficiais e instituições reconhecidas pelo Banco Central.